Fui incumbido de uma tarefa árdua, penosa, grande o bastante para tomar espaço de mil luas e difícil o bastante para impregnar meu coração da maior coragem, da maior alegria, da maior satisfação que ele pudera comportar. Esse desafio suplanta até as dificuldades das línguas escrita e falada. Essas duas, muito diferentes por vezes, foram o código que o homem criou para se expressar de uma forma direta ao cérebro e ao coração. Há outras formas, gestuais principalmente, usuais também e que calam à alma, abrandam dores e sufocam amores por vezes também os acalentam. Eu preferiria falar do meu avô Moacir em gestos, em silêncio profundo, pois assim  talvez eu exprima de uma forma mais dimensional, menos codificada.

            Não estarei nessa sua homenagem, não pessoalmente e tenho que lançar mão desse código escrito e restrito como já falei. A homenagem de pôr seu nome na rua que tanto o viu desde sempre é justa e correta. Uma rua curta, meio tortuosa, entremeada por duas praças, numa leve curva, meio Copacabana do sertão mas que sempre foi sua, da  aurora até o lusco- fusco do  final de tarde que para seu estilo de vida, sempre dormindo cedo e acordando mais cedo ainda, já se fazia tarde.

            Eu não sei ao certo quando vovô Moacir se instalou na Santa Cruz, mas já nasci sabendo que lá morava a minha felicidade, canto de Seu Moacir e Dona Bete, naquela casa de frontispício de pedra sabão, com duas colunatas finas, uma pequena varanda, algo que lembrava vagamente o estilo art-decò , mais longa que larga, com um terreiro grande, sem oitão, com um pequeno primeiro jardim com um pé de figo, cisterna imensa que eu nunca podia subir, um grande pé de siriqüela( onde a gente podia tirar tantas  quanto pudéssemos, o território era nosso, sem proibições nem anacronismos e “ruindades” de adultos insalubres), um viveiro imenso onde o via cuidando, quase sempre ao meio dia, da passarada, sol a pino, a pele branca se queimando para logo ali um outro viveiro, bem maior e largo onde de tudo cabia, de cachorro a pombos.

            Aquele mundo era a minha “fantástica fábrica de chocolate”. Era só passar um portão grande de madeira que tínhamos um riacho de água pesadíssima e salgadíssima, onde pegávamos piaba quase todo final de tarde numa técnica difundida entre os netos usando um saco plástico, técnica de pesca manual. Gloria a deus! Àquele tempo não havia computadores, nem internet nem todo o sortilégio devastador. A música era sempre ouvida de radiolas e de rádios AM, era permitido Nelson Gonçalves e Clara Nunes, a televisão já era colorida mas quase sempre os chuviscos só faziam a gente imaginar o que ocorria trás da telas. Não havia mar mas havia barragens e açudes, de águas barentíssimas que nos faziam a alegria.

            Passando o riacho, na verdade um córrego de água salobra chegaríamos a um estreito de terra chamado Pororoca.  Vovô adorava aquele lugar. Eu achava aquilo meio floresta, com seus pés de tamarindo.

            Esse era o nosso mundo, com aquele homem de cabelos brancos (nunca me lembro vovô diferente), sempre cambaleante devidos as agruras da saúde e olhos claros, dissonantes com o clima e com o todo o mais, afinal estávamos na boca do sertão pernambucano. Era ali o Pau Ferro, útero de todos nós.

             Eu não sabia o que era ter a infelicidade das grades de apartamentos nem da violência atual. Nem sabia o que era ter dias de ócio, pois sempre estava no Possidônio ou ali pelo riacho pescando como índio moderno.

            A figura de meu avô sempre foi a sombra dos netos. Ele nunca foi de carinhos e abraços. Seu cuidado era feito de outra forma, adicionado a olhares e a sugestões de ora, por exemplo, andar a cavalo.

            Por isso, acho justíssima essa homenagem, e eu como neto e gestor do seu nome agradeço em nome de todos os outros netos, espalhados pelas lacunas brasileiras.

            Herdei o nome dos meus dois avôs, paterno e materno. Moacir sempre me soou meio meu, meio tão meu que acho que se outra forma não houvesse, se mil vezes tivesse eu nascido, Moacir me acompanharia. Essa foi a primeira justa homenagem a meu avô. Portanto essa que vos fazem de por seu nome à rua, já é outra. Nasci no mesmo dia que ele, ali pelo final de março no primeiro decanato do signo de Áries.

            De vovô além do nome herdei a impaciência, a ansiedade e a franqueza. Nunca vi meu avô titubear com as palavras. Também o tenho como símbolo de justeza e honradez. Desconheço homem mais honesto. Pois bem, a Rua Santa Cruz levará o novo nome, grafado de  Moacir de Albuquerque Barbosa e tenham certeza que gratissimos os céus estarão, porque se faz justa a homenagem a um homem correto quando o mundo é escasso de tal material. Foi dada a um filho de Açurema a homenagem devida. Que esse exemplo se repita com tantos outros que tombaram em solo itaibense e fizeram a historia desse lugarzinho que aos outros parece nada, mas para  nós, que fincamos raízes aqui, parece ter mil Paris de tamanho.

 



Escrito por O dono do blog. às 21h38
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