“Lutei uma vida inteira para não morar em Londres."

Preferi ficar longe do palco esses dias. Metade dos dias fiquei longe por insistência minha. Coisa pessoal, adendo intimo. A outra metade fiquei porque quase me tiraram do palco. Recebi a dois dias do ano novo , numa tentativa de assalto, uma bala que está a mim a mesma distancia que eu queria estar de vocês, posto alguns centímetros. No banco do meu carro. Reverberou por dentro dele enquanto eu telefonava na beira de uma estrada a caminho do meu Recife, e a caminho de Patacho,ali pelas Alagoas, paraíso igual não há. Tenho muitas considerações a serem ditas. A única que me importa é que voltei aqui porque Mozart, meu único leitor que vale uma visita, me pediu isso despudoradamente. Porque pelos outros tais, aqueles que vejo e os que não vejo, talvez não valem a imperícia das letras malescritas. Pois bem, levar uma balada não é comum, não moro no Rio nem na faixa de Gaza. Mas ando perto disso. Levar uma balada me pôs de frente comigo. Pensei em morrer aqui pelos trinta e dois. Muita coisa deixaria de ser vista. Muita coisa deixaria de ser compartilhada. A reflexão é necessária porque o ato extremo, minha morte eminente, me pôs de pés em um templo cristão. Meti meu pudor de lado e agradeci no palco de Pedro a continuação do filme, do meu filme pessoal quando dois caras numa moto queriam o contrário. Mas queria falar do reveiom da mundiça escarapitanda e intelectualizada. Mundiça é sempre perigoso, e se elas leram Joyce, o perigo se torna maior. Para quem não é nordestino o termo mundiça pode parecer estranho. Nem sei como isso se traduziria para o inglês, mas digamos que mundiça seja um grupo de pessoas que não nasceram para o cerimonial da boa vizinhança e para o convívio social. Mundiça do olho pelado é um subtipo muito comum, mas não quero me deter no cerne antropológico-sociológico da sessão. Li Joyce, mas minha educação passou pela beira do que ali ví. Luto exaustivamente para não cair no falso moderno. Lutei uma vida inteira para quebrar paradigmas diretos e fazer com que meu discurso seja mais ou menos parecido com o que pratico. Meu reveiom foi uma foto em branco e preto inglesa. Houve uma parte verdadeira, impermeabilizada pela cor que ocorreu ate meados da meia noite. Protagonizou-se ali a verdadeira amizade articulada por pessoas como Seu João Junior. Com esse iria até o fim do mundo. Ou com Talbert, iria até o fim do mundo e daria uma volta para compras, mesmo que isso demorasse a eternidade. Com Kleber seria diferente, iria até o fim do mundo e ficaria dando voltas alucinadas até o trem resolver parar. Pediria isso por celular. Sempre ele. Com Hilton daria uma volta ao fim do mundo e pararia num bar. Se eu conseguisse tirar Domicio da cama eu daria uma volta com ele até o fim do mundo e seria ótimo. Com Chica eu ate daria uma volta ao mundo, conquanto que ela me deixasse falar e achasse que festa chata com paulista de branco e biju igual seu sotaque, falando inglês numa praia nordestina não é coisa para matuto como eu. Todos mundiças. Da melhor qualidade. Não precisei investigar o assunto a fundo. Mas a parte falsa não conseguiu se impermeabilizar. Os flashes não deixaram. Não tive duvidas. Peguei meu cavalo, arriei a sela e me pus a caminho de outros prados do mesmo lugar. Pela rota da auto estrada estreitíssima vi um bando de casas em todo perímetro. Tudo era tão curto, a estrada , que a impressão que me deu era que eu fazia parte daquela festa e entrava na casa de todos mesmo dentro do carro. Subi aos céus. Pude ver a real alegria de um povo sofrido. Que mesmo tendo sucumbido a pobreza material e sem nunca pensar um dia ir a Londres para escutar algo Drum&bass. O som era horrível, cada qual com os eu , mas que maravilha aquilo! Proponho a volta ao homem selvagem, desprovido de toda mascara social, de todo luxo, de toda falsa jóia. Proponho o homem selvagem naquele local inspirador, sem pocar de fogos. Proponho a volta a esse homem primário, até porque é desse que a gente gosta.

 



Escrito por O dono do blog. às 20h28
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